1.2.20

Uma espécie de saudade...

Trago comigo, sempre, todos os sonhos em espera, todos os desejos em pausa, todos os futuros que vou fazer, todos os beijos que hei-de dar, todas as tintas que vou misturar, todos os poemas por escrever, todas as melodias que vou inventar, todas as canções que não cantei, todos os rios que me levarão, todos os mares que me afogarão, todas as asas, todos os ventos e todos os sabores que sei ainda me abraçarão um dia. É essa espécie de saudade do que ainda não foi, permanentemente colada ao corpo, essa folha branca página seguinte por escrever, que me ilumina, me faz caminhar, me acorda, me aquece e separa do congelar da desesperança e da morte sua gémea.



(ilustração antiga, feita a pensar no poema "Árvore velha, menina nova")


Árvore velha
com mil estações

Menina nova
um rebentinho
sem florações

Árvore velha
livro antigo
com tanta história
para se ler.

Menina nova
folhinha branca
com tanto espaço
para escrever..

in Das Palavras

31.1.20

... do tempo




Um poema sem tempo tem menos palavras do que um poema com tempo.

Num poema sem tempo o coração bate mais depressa do que num poema com tempo.

Este poema sem tempo repete mais palavras do que um poema com tempo.

O poema que eu queria escrever era um poema com tempo, mas só sobra tempo para um poema sem tempo.

Um poema sem tempo esconde-se sempre na sombra de um poema com tempo.

Onde um poema sem tempo sufoca, um poema com tempo pode respirar.

O poema com tempo reproduz-se, o poema sem tempo morre(-se)

Árvore é um poema com tempo, flor é um poema sem tempo.

(cada um no seu tempo, ambos sempre a tempo de voar)

Carta ao Manuel...

(Partilhado no Correio da Educação aquando do desaparecimento do Manuel António Pina... o Mestre que escolhi)



Querido Manuel, é tão tardia esta carta. Tão irremediavelmente tardia que nem sei em que estrela te pendurarás para a escutar ao meu lado enquanto a canto como a um fado.
Eu que me habituei a ser fada de mim e a usar uma varinha de condão para realizar os sonhos que vou sonhando (tantos deles para a escola), não quero acreditar que um deles vai ficar perdido por aí, deambulando, órfão de ti e da tua voz, sem destino a que chegar.
Sabias que fiz planos para me cruzar contigo e quase consegui? Tantas perguntas eu levava no bolso. Afinal só estivemos quase juntos porque o espaço foi o mesmo (inverno frio na Guarda e uma biblioteca quente), mas os dias foram dois, colados um ao outro sem se sobrepor. Adiamos na vida tanta coisa. E depois o sal e a dor. E inventamos que as pessoas não morrem porque a obra, a memória, essas coisas de circunstância, de limpar lágrimas e seguir em frente. Morremos sim, porque o futuro vai ser para sempre feito de passado. Parece que é a mesma coisa, mas é tão diferente. Eu queria continuar a escutar a tua voz e colá-la ao que já disseste até te dizerem que não podias dizer mais nada. Fim. Não queria somente o que já foi, o que li e reli. Não queria apenas amanhã só regressar a ti.
Ter sonhos que não sei sequer quais são, sentir saudade do que não sei que pode ser que venha a ser um dia e andar por aí a semear flores mesmo na rocha mais dura… tu entendias este desassossego e nas tuas palavras sempre encontrei e encontro a certeza da sanidade e urgência desta espécie de loucura.
Não é professor quem quer. E podemos ser professores sem querer, sem saber.
Tu foste o mestre que escolhi, sem sequer te pedir licença. Zangada com os deuses distraídos que deixaram bruxas e monstros maus calar a tua presença.

Mas talvez este sonho agora sem rumo tenha ficado apenas interrompido. Seja assim um intervalo de ser em que vamos às nossas vidas em paralelos planos, até à interseção final toda semeada de mistério e esperança.
Quem sabe um dia encontro-te, estendo-te a mão e explico: Olá, Manuel, chamo-me Teresa e sou professora. Também escrevo um bocadinho, aqui e ali, mesmo quando não escrevo e uso as palavras só para tecer o pensar.
E nem imaginas o tanto, o imenso que me fizeste crescer e caminhar até voltar a ser criança…

«Uma coisa que me põe triste
é que não exista o que não existe.
(Se é que não existe, e isto é que existe!)
Há tantas coisas bonitas que não há:
coisas que não há, gente que não há,
bichos que já houve e não há,
livros por ler, coisas por ver,
feitos desfeitos, outros feitos por fazer,
pessoas tão boas ainda por nascer
e outras que morreram há tanto tempo!
Tantas lembranças de que não me lembro,
sítios que não sei, invenções que não invento,
gente de vidro e de vento, países por achar,
paisagens, plantas, jardins de ar,
tudo o que eu nem posso imaginar
porque se o imaginasse já existia
embora num sítio onde só eu ia...»

O pássaro da cabeça, «Coisas que não há que há», de Manuel António Pina

Vitrais...


Pedacinhos de vidro colorido.
Assim são as palavras
lidas por dentro
a contraluz
devagar.

Por fora parecem escuras
quase sem significado.
O Sol (um poeta?) no seu avesso
consegue fazê-las
cantar. 

(in "Das Palavras"... meu... Plano Nacional de Leitura)

29.1.20

Uma (muitas) folha(s) em branco para pintar...

O tempo tem passado cheio de folhas em branco. As razões são muitas, mas nenhuma pode ser desculpa para o vazio. Criar não deve ser coisa de momentos dispersos. Criar tem de ser um movimento constante, ou a magia perde-se (e com ela o desejo de mais magia?).

Teresa, vamos (re)começar?

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se eu morrer morres também?
e, depois, eterno esse amor de mais ninguém?






6.6.16

Recensões críticas sobre o livro Sonho com Asas (Sueños de Volar)


Há tempos partilhei uma alegria grande, hoje partilho outra.

O livro já está nas livrarias e a ser bem recebido.


Ver AQUI informação